Cleo, uma astrônoma grávida de São Paulo, é surpreendida pela visita de sua meia-irmã Nalu, que revela um segredo perturbador, despertando memórias fragmentadas. Com uma estranha conexão com uma onça, Nalu quer e irá desestabilizá-la. Cleo descobre atividades suspeitas no computador do marido, Tony, que é habitué de zonas sombrias da deep web, mergulhando-as em uma exploração com profundas consequências.
ECLIPSE, de Djin Sganzerla é um filme essencial para o atual momento brasileiro e mundial.
Entrelaçando estética e política, personagens densos e um roteiro bem construído, numa excelente direção geral, Eclipse faz refletir sobre a cultura da violência patriarcal-colonial e sobre como as mulheres podem sobreviver a ela.
Eclipse se desenvolve entre oposições numa geometria interna que faz pensar. Visível e invisível, o que é e o que parece ser produzem um jogo de sombras entre as cores do filme. Natureza e cultura, céu e terra, floresta e cidade, animal e humano, homem e mulher, feminino e masculino, intuição e ciência, razão e sensibilidade, cativeiro e liberdade são os opostos ora em comunhão, ora em conflito que estruturam a trama.
Talvez a onça seja o seu personagem principal, ainda que pareça um fator correndo em paralelo enquanto pontua a narrativa envolvendo as duas irmãs, Cleo e Nalu. Nas cosmologias ameríndias a onça é o mais poderoso dos seres. O “jaguar” é o destino dos heróis. Em Eclipse, ela é emblema da mulher atacada e “caçada”, mas que, por sua própria natureza, não cede de seu instinto de sobrevivência intimamente ligado à dignidade, à liberdade, à autonomia. A coragem é a mais básica reação diante da violação desses valores.
Das fugas de Nalu pela mata à cena em que Cleo atravessa a casa e chega à rua, o que vemos é a afirmação da onça como destino. Distribuindo a energia imagética da narrativa, a onça é o elo entre as duas irmãs que, cada uma à sua maneira, realiza seu destino de ser ela mesma a onça. Assim acontece com Nalu, a irmã indígena, portadora do espírito da onça desde sua casa na floresta onde habita uma avó ancestral. Cleo vem a ser a irmã urbana, astrônoma, que recebe de presente da avó de Nalu uma escultura em forma de cabeça de onça, emblema de seu reconhecimento familiar.
A trama envolve o encontro dessas mulheres cujo elo histórico é sanguíneo e violento, enquanto um elo supra-histórico, de reconhecimento, vai se desenvolve ao longo da narrativa até chegar ao amor das irmãs uma pela outra, até a constituição da sororidade. Nalu era abusada pelo pai, enquanto Cleo relembrará que o pai também abusou dela na infância.
Apesar desse elo abjeto, elas se tornam mulheres que aprendem a se defender, que são livres, sábias e dignas. A sororidade é a noção que desponta e se afirma ao longo do filme. Mas o encontro entre elas é também marcado pelo que Vilma Piedade chamou de “dororidade”. A dor que as une é a mesma leva a lutarem juntas.
A sororidade feminina é, nesse contexto, confrontada com a fraternidade masculina. É o poder da sororidade, do amor das irmãs, que vai desmascarar a falsidade do marido de Cleo. Amoroso com sua esposa em casa, ele tem uma prática oculta. Junto a um grupo de homens, inclusive seu próprio pai, ele participa de festas nas quais se praticam estupros recreativos de mulheres jovens. O personagem do marido é um emblema do patriarcado predador, da fratria abjeta, que seduz para fazer vítimas, que engana, mente e manipula usando uma máscara de bom moço, filho preocupado e pai de família, enquanto pratica suas perversões criminosas às escondidas. A casa onde Cleo vive, portanto, não é um lar simplesmente, ao contrário, ficará claro seu caráter de cativeiro. O marido “cuidador” é, na verdade, o predador à espreita, analogamente ao cuidador da onça no zoológico. O roteiro fornece o caminho para essa conclusão sobre a onça-mulher aprisionada: logo no começo do filme, Cleo dirige o carro e, sentindo náusea por estar grávida, precisa parar para vomitar no exato instante em que ouve no rádio que uma onça presa em cativeiro atacou seu cuidador.
Assim, o filme trabalha com desmistificações do sistema patriarcal de um modo muito sutil: a enganação do amor romântico, a farsa do marido e da família perfeita, a casa apresentada como um território perigoso no qual a maternidade pode ser uma armadilha. Eclipse é uma sequência de “eclipses” que mostram aquilo que o patriarcado gostaria de manter oculto e que uma mulher “astrônoma”, a mulher emblema da sabedoria, da pesquisa, da paciência e da firmeza, saberá nomear.
O filme não faz nenhuma apologia de “superações”, “resiliências” ou algo do tipo, ele não mistifica clichês, ao contrário, apresenta-os para desmontá-los elegantemente. Além disso, Eclipse faz saber que, apesar da força pessoal das mulheres, é certo que elas precisam umas das outras para sobreviver à violência que lhes é destinada no circulo predatório do patriarcado.
Ensaio visual sobre a sororidade, Eclipse é a história da construção de um amor entre irmãs e de uma luta por uma vida boa a justa.
Texto por Márcia Tiburi
ALINHAMENTO TOTAL
Cleo
Tony
Nalu
Lucélia
Seu Roberto
Gilda
Djin
Sganzerla
Djin Sganzerla é diretora, atriz, roteirista e produtora de cinema. Iniciou sua carreira como atriz, trabalhando com alguns dos mais respeitados cineastas do país e recebendo diversos prêmios, entre eles o APCA de Melhor Atriz de Cinema.
Em 2020, lançou seu primeiro longa-metragem como diretora, Mulher Oceano, que roteirizou, dirigiu e no qual também atuou. O filme participou de festivais no Brasil e no exterior, conquistando 15 prêmios, entre eles o de Melhor Filme no Porto Femme International Film Festival, Portugal. Pelo trabalho, Djin foi indicada ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2021, na categoria Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem, e ao Prêmio da Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA), pelo roteiro.
Em 2022, dirigiu e roteirizou, ao lado de André Guerreiro Lopes, o curta-metragem Antes do Amanhã. A obra recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio de Melhor Fotografia, sendo exibida em festivais como o 33º Festival Internacional de Curtas de São Paulo e o Beijing International Short Film Festival, entre outros.
Seu segundo longa-metragem, Eclipse (2025), foi filmado em São Paulo e no Pantanal.
Como atriz, Djin recebeu inúmeros prêmios, incluindo o de Melhor Atriz de Cinema pela APCA, Melhor Atriz no 12º Festival de Cinema Luso-Brasileiro, em Portugal, Melhor Atriz Coadjuvante no 39º Festival de Cinema de Brasília e Melhor Atriz no 24º Cine PE, em 2021.
É sócia da Mercúrio Produções Ltda., fundada em 2001 por Helena Ignez, Djin e Sinai Sganzerla. A produtora reúne mais de trinta filmes em seu catálogo e recebeu inúmeros prêmios ao longo de sua trajetória. Djin é filha dos cineastas Rogério Sganzerla e Helena Ignez, ícones do cinema brasileiro.
Mercúrio
Produções
Mercúrio Produções Ltda, produtora fundada por Helena Ignez, Djin Sganzerla e Sinai Sganzerla, é responsável por toda a obra cinematográfica do cineasta Rogério Sganzerla, além das produções audiovisuais próprias de suas fundadoras. A produtora tem mais de trinta filmes em seu currículo e inúmeros prêmios.
Alguns dos filmes da produtora
ECLIPSE
Um filme de Djin Sganzerla